Harry Stone, o lobista dos sonhos

Foto da Revista Manchete, de 1998, que ilustrava reportagem sobre “gringos” que se sentiam em casa no Rio de Janeiro

Durante 40 anos, Harry Stone foi o lobista oficial no Brasil da The Motion Picture Association of America (MPA), que reúne oito dos maiores estúdios de Hollywood – Paramount, Universal, Columbia, Fox, Warner, United Artists, MGM e Turner.

A poderosa entidade, quase um departamento de Estado no Brasil, era uma das grandes ferramentas dos EUA para fazer o seu RP. Era tão forte que o cineasta Glauber Rocha, entre outros, espalhava que Stone era agente da CIA, fato nunca comprovado.

O Presidente Juscelino Kubitschek foi padrinho de casamento de Stone com Lúcia Burlamaqui, em 1958. Foto de Nicolau Drei/Revista Manchete.

Amigo de todos os presidentes da República, o lobista norte-americano teve um dos seus auges no governo de Juscelino Kubitscheck, quando distribuía filmes nos prédios em construção e acompanhava os passos dos produtores brasileiros nos corredores do Congresso.

Chegou a ciceronear a família de Juscelino em visita aos estúdios da Califórnia e até defender os gastos do governo nos canteiros de Brasília.

Harry Stone divulgava abertamente a sua intenção de trazer o ator Kirk Douglas para interpretar JK num filme épico que estaria sendo produzido por um diretor brasileiro.

Em 1995, já aposentado, Harry Stone, que morreu em 2000, recordou sua invejável atividade:

“Meu trabalho era simples. Conseguir para o meu patrão, a indústria cinematográfica norte-americana, bastante movimento nos cinemas da América Latina. E, claro, bastante dinheiro”.

As metas de Stone foram sempre atingidas. “Conseguimos contato com o pessoal do governo de cada país”.

Sobre ser um lobista poderoso, Stone desdenhou: “Essa palavra, que a imprensa descobriu recentemente, mas que Brasília já conhece faz tempo, nunca foi muito bonita no País. Sim, sou lobista, tentava ficar amigo do governo. Aqui, no caso, era garantir um mercado livre e forte para o cinema brasileiro, o norte-americano e possíveis produções conjuntas”.

Stone conheceu brasileiros na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Era soldado de ligação com os nossos pracinhas. Como também era diplomata, foi mandado para o Brasil para trabalhar pelo cinema. “Quando cheguei aqui, em 1954, o cinema brasileiro estava no auge. Depois, os diretores começaram a fazer os chamados “filmes de arte”, com histórias tristes e complicadas. E Hollywood continuou a fazer filmes que atraem mais gente, filmes de ação, humor. Então, eles ficaram chateados com a gente”.

Stone morreu no Rio, ao lado de sua mulher, Lúcia Burlamaqui Stone. “Eu logo me casei com uma brasileira e o Juscelino foi padrinho de nosso casamento, o primeiro presidente brasileiro a ser padrinho de um estrangeiro. O JK era uma pessoa especial, um verdadeiro fã do cinema. Tanto que, ao mandar construir o Palácio do Alvorada, fez questão de incluir uma belíssima sala de projeção.

E todos os ministros da época, até o vice-presidente, tinham sala de cinema nos gabinetes. Cada pré-estréia era uma festa, e todos faziam questão da pré-estréia. A sala do Alvorada é luxuosa, muito melhor que a da Casa Branca!

JK pensou em tudo. Fazia questão que eu levasse os artistas de Hollywood para ele conhecer. E era sempre gentil.

Uma vez, Kim Novak chegou ao palácio e foi tirando os sapatos.

“O sr. me desculpe, presidente, mas meus pés estão me matando”, disse ela.
Ele tirou os sapatos também, em solidariedade”.

Em quatro décadas de intensas atividades, o “cineminha” do Stone, no Rio de Janeiro, era um lugar muito frequentado por socialites, artistas, empresários e políticos. “Fui amigo de todos. Até do próprio João Goulart, numa época em que isso era difícil. Naturalmente, Castello Branco era o que tinha menos interesse pelo cinema. E, com o Geisel, não cheguei a me reunir, apenas nos encontramos socialmente.

Mas não tive apenas amigos presidentes. Eu gostava muito, por exemplo, do ex-ministro Hélio Beltrão. Sou fã e amigo de muitos anos do vice-presidente Marco Maciel. Até a convivência com o ex-governador Leonel Brizola foi fácil”.

Harry Stone fazia questão de, no dia 7 de setembro, vestir de novo seu uniforme de soldado americano para desfilar entre os pracinhas brasileiros.

1955: com o deputado Brizola, no vôo inaugural da Varig para Nova Iorque.
1966: Costa e Silva despede-se do casal, após uma sessão de cinema.
1990: com Collor, numa recepção em Brasília, na véspera da posse.

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