Jorge Serpa, o “guardião das trevas”

A frase acima, de Affonso Frederico Schmidt, é uma das muitas informações que o livro de Leonencio Nossa traz, sobre o “maior lobista do Brasil”, um dos grandes amigos de Roberto Marinho

Jorge Serpa
Jorge Serpa: “Eu não aconselho ninguém: converso com amigos. Eu não conspiro”.

Entre os vários méritos do livro “Roberto Marinho, O Poder está no Ar” (ed. Nova Fronteira), do jornalista Leonencio Nossa, está uma surpreendente entrevista com o lendário e invisível lobista Jorge Serpa, que faleceu em janeiro 2019, aos 96 anos. Se foi a primeira entrevista a um jornalista brasileiro, também foi a última.

Do alto de seus 1,90, ou mais, Serpa falou francamente e deixou bem claro a sua relação com Roberto Marinho ao autor:

“O Roberto foi totalmente meu amigo. Não fazia nada sem me ouvir. Eu mandava nas Organizações Globo. Eu estava numa situação que você pode imaginar, um advogado com os melhores clientes do país”.

A concessão das TVs foi o ponto alto da relação. “Trabalhei com isto. Tudo passou por mim. Então, eu tinha uma posição excepcional”.
Sua influência no jornal era muita. “Todo dia, todo dia, todo dia”, afirma Serpa.

O lobista não economiza na avaliação de que ninguém no lobby e na política do Rio se comparava a ele, especialmente nas relações dos donos de jornais e revistas com o governo, relata Leonencio Nossa.

“Chateaubriand era meu amigo, gostava muito de mim. Roberto tinha ciúmes dele. A Nilmar (Bittencourt, dona do Correio da Manhã) era minha paixão. Recíproca, entende?”

“Me dava com os donos de jornal, me dava com os políticos, né? As lideranças políticas, o mundo empresarial todo. Walter Moreira Salles era meu amigo fraternal, o velho Wolff Klabin, né?”

Serpa era íntimo do presidente João Goulart.

“(…) o Jango fez loucuras. Eu acalmei (donos de jornais). Mas acalmei como pude, entende? Eu pus o Paulo Bittencourt com o Jango. Eu pus o Roberto várias vezes. Eram encontros cordiais. Tentei tudo, né?”

O jornalista Evandro Carlos de Andrade, que dirigiu o jornal O Globo a partir de 1970 e depois o jornalismo da TV Globo, travou uma guerra de poder com o lobista.

“Eu não sei a fonte de força do Serpa. Ele era a pessoa de mais confiança. O Dr. Roberto gostava muito de um vigarista, muito”.

Evandro satanizava Serpa, principalmente para os filhos de Marinho, segundo Nossa. “Jorge Serpa foi a pior coisa que ocorreu na vida de Roberto Marinho”.

Evandro controlava tudo com mão de ferro, menos os contatos do lobista com Marinho.

O banqueiro José Luiz Magalhães Pinto tentou apaziguar as partes:

“Os filhos acham que o Serpa se aproveitava da amizade para faturar um pouco. Eu insisti muito”. A nova geração dos Marinhos queria distância de um certo passado.

Capa do livro Roberto Marinho O Poder está no Ar
Capa do livro

O poeta Augusto Frederico Schmidt foi um dos lobistas mais influentes e próximos de Marinho, em cujo círculo Serpa foi criado.

Do exterior, Schmidt escreveu para saber notícias de quem seria apelidado “guardião das trevas” pelos filhos de Marinho.

“Que notícias me dá do tardonho e incerto Serpa? Continua ele a traçar e a esvair-se às principais luzes da manhã?”

Nas rodas de conversas, conta Nossa, Darcy Ribeiro, que fora ministro de Jango, acusava Serpa de ser colaborador da CIA. Pelos documentos conhecidos da Embaixada Americana, não se sabia para que lado o advogado jogava.

O jornalista Joel Silveira defendeu Serpa:

“Todo mundo desconfiava do Serpa. Mas ele era fiel e amigo do Jango. Ele, Jango e a Maria Teresa deitavam na cama, os três, para conversar. Serpa era assessor do Jango, sem que ninguém soubesse. Não ganhava por isso. Ele dava uns conselhos, ia muito no sítio que o Jango tinha aqui, em Jacarepaguá.”

A fundação da TV Globo, em 1965, deu início à fase mais conhecida de Roberto Marinho, como um dos homens mais influentes do país. É essa etapa que Nossa vai retratar no próximo livro. O autor, de 45 anos, é repórter do jornal “O Estado de S. Paulo”. Mora em Brasília e já escreveu cinco livros. É vencedor de dois prêmios Esso, recebidos em 2014 e 2015.

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