Kissinger, o maior e mais longevo

No Vale do Silício, existe um ditado não escrito: “Fake it until you make it”. A premissa é: se um produto ou solução é esperado de sua empresa e você não tem isso em mãos, não admita, mas enrole o público até acontecer”.

Cartaz do documentário The Inventor, da HBO
Elizabeth Holmes, no cartaz do documentário da HBO

Este era o propósito de Elizabeth Holmes, aos 19 anos de idade, quando fundou, em 2003, a Theranos, uma startup no Vale do Silício que prometia exames clínicos a partir de uma única gota de sangue, com a ajuda de uma máquina do tamanho de uma impressora a laser chamada Edison (como o inventor Thomas Edison). Ela conseguiu investimentos de US$ 1 bilhão, rodeando-se dos ricos e poderosos, como os ex-secretários de Estado Henry Kissinger e George Shultz. O dono da Fox News, Rupert Murdoch, inacreditavelmente, colocou do próprio bolso US$ 125 milhões.

O problema: a Edison não funcionava. Em 2014, a empresa valia US$ 9 bilhões. Menos de dois anos depois, zero. Não deu para enrolar a todos por todo tempo.

Como uma mulher tão jovem conseguiu enganar tanta gente tão curtida?

O documentário “A inventora: à procura de sangue no Vale do Silício”, que está na HBO, tenta responder a essa pergunta. Vale a pena assistir.
Mas, aqui, o nosso personagem é outro: o interminável Henry Kissinger, um dos ludibriados pela jovem sociopata.

O que o Prêmio Nobel da Paz e ex-chefe de Estado de dois governos republicanos estava fazendo lá? Nesse caso, não era o homem certo na hora certa, como esteve em muitos momentos históricos.
Kissinger estava fazendo o mesmo de sempre, desde que deixou a área pública em meados dos anos 70: lobby.

Uma das estratégias da jovem Holmes era vender seu invento para o governo americano, principalmente para as forças armadas. Há vários registros dela em companhia do presidente Barack Obama, por exemplo. Todos muito sorridentes.

Por não mera casualidade, um ex-funcionário de Kissinger era um importante auxiliar de Obama: Timothy Geithner, secretário do Tesouro, durante a crise financeira mundial.

Para tudo e também para as compras governamentais, o Edison precisava de uma aprovação do Food and Drug Administration, o poderoso FDA. Em junho de 2015, com Edison já piscando, houve a aprovação do FDA. Nem Holmes acreditava mais nessa possibilidade. Em seguida, em outubro do mesmo ano, um repórter do The Wall Street Journal começou a fazer as primeiras matérias, com fontes internas da empresa, e apagaram-se as luzes do Edison.

O diretor do documentário, Alex Gibney, disse que seu interesse em realizá-lo estava na credulidade dos jornalistas que a colocaram nas capas de revistas, mas, também, dos investidores. “Eu acho que este caso diz muito sobre o capitalismo. É tudo baseado no ‘confie em mim’”.

Colocando pessoas respeitadas no conselho da Theranos, Holmes aumentava a credibilidade da empresa. Contratando um advogado como David Boies, que defendeu Al Gore no caso da eleição presidencial de 2000, mais credibilidade. Um jornalista resolvia escrever uma reportagem, credibilidade adicional. Fora que ela prometia algo que era o sonho de muitos: fazer exames para detecção de doenças sem precisar ir a um laboratório, tirar vários tubos de sangue e pagar uma fortuna. Os exames podiam ser escolhidos num cardápio e custavam bem menos do que em laboratórios comuns – num país como os Estados Unidos, sem saúde pública e com pouca gente com plano de saúde, era quase um sonho.

“Estamos revolucionando a medicina”, afirmava Schultz. Kissinger ia pelo mesmo caminho, avalizando a jovem empreendedora.

Mais uma biografia

Henry Kissinger
Henry Kissinger, LBJ Library / Nick Ut / 2016.

Hoje, aos 96 anos, Henry Kissinger é uma figura que continua a despertar curiosidade. O ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, ex-conselheiro para assuntos de Relações Exteriores, ex-conselheiro político e confidente de Richard Nixon, terá sua história de vida relatada novamente, em dois volumes, pelo historiador escocês Niall Ferguson. O primeiro volume foi lançado em 2015 e o segundo é esperado para 2021.

O fracasso do caso Edison deverá entrar no segundo volume. Será?
Ferguson vê o itinerário de Kissinger assim: “O ex-secretário de Estado deve seu sucesso, fama e notoriedade não apenas a seu intelecto poderoso e formidável, mas também à sua excepcional capacidade de construir uma rede eclética de relacionamentos”.

Segundo o historiador, “a maioria dos escritores que estudaram sua carreira subsequente em Washington tendem a explicar o rápido crescimento da influência de Kissinger em termos de seu relacionamento íntimo com Nixon ou de seu talento para as disputas muito burocráticas que ele havia condenado como acadêmico”. O que, para Ferguson, é ignorar a característica mais distinta do modo de operação de Kissinger: “enquanto os que o rodeavam continuavam ligados às regras da burocracia hierárquica que os empregava, Kissinger, desde o início, dedicou considerável energia à construção de uma rede que se estendia horizontalmente além do perímetro”.

Não é ruim, para ninguém, aproveitar suas virtudes e reputação para ajudar causas e empreendimentos. Mesmo que, às vezes, a realidade desminta projetos fantásticos, bem vendidos porém falsos.

Kissinger também corre seus riscos.

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